TV e Pipoca Indica: Minissérie | River

Uma obra de arte que escancara a loucura de uma mente perturbada em uma sociedade perigosamente insana. Assim podemos definir River, minissérie em seis episódios, dirigida por Abi Morgan (As Sufragistas, Shame, A Dama de Ferro), produzida pela BBC e atualmente disponível na Netflix. O detetive John River, interpretado magistralmente por Stellan Skarsgård, investiga o assassinato de sua parceira Stevie (Nicola Walker), descobrindo segredos atormentadores sobre seu passado, em uma trama desenvolvida no ritmo certo e que certamente lhe prenderá a atenção.

John é um homem com dificuldades de relacionamento, atormentado, esquisito, e que conversa com fantasmas. Sim, ele fala com os mortos, inclusive com Stevie. Porém, não podemos tratá-lo como um louco qualquer. A maior loucura da série é retratada através dos comportamentos repugnantes de seus personagens. A todo momento você se questiona se o John realmente é um desatinado ou se é a sociedade que está cada vez mais decadente. A complexidade das relações interpessoais é o grande destaque desta história. Temas como luto, abuso, xenofobia, traição, amizade e auto análise são tratados com uma delicadeza ímpar.

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Todos os personagens são bem trabalhados e explorados, fazendo com que a trama não se desenvolva apenas em torno de seu protagonista. É impossível amar apenas ao John, pois cada personagem nos dá uma dose tão grande de  empatia, que acabamos por mergulhar em todas as suas dolorosas histórias.

A fotografia desta obra é exemplar. A história se passa em Londres, mas longe de seus cartões postais. Não vemos nada bonito ou admirável, apenas a parte suja e cinza da cidade, com seus prédios comerciais e ruas escuras. A paleta de cores busca os tons mais secos e frios, de forma a retratar a tristeza e o luto de seu protagonista. Tudo é sombrio e fúnebre. A trilha sonora se encaixa com todas as questões psicológicas das cenas em questão. O trabalho de montagem encaixa tudo em seus devidos eixos e nos momentos exatos. Stellan Skarsgård faz um trabalho tão incrível que o público se solidariza com ele em todos os momentos, até mesmo nos mais agonizantes e perturbadores. Dá vontade de entrar na série e dar um abraço no John. Senti essa vontade em todos os episódios. Stellan é, definitivamente, um dos melhores atores da atualidade e, certamente, o grande trunfo desta produção. Nicola Walker faz um trabalho muito competente e nos conquista com seu humor, sorriso e olhar de criança feliz. Os dois acabam por formar um casal lindo, melancólico, honesto em seus sentimentos, e brilhantemente delicado. Os diálogos são muito bem construídos, sem pecar em exagero ou clichês. O núcleo secundário tem um grande peso e faz toda a história ter um sentido. Ninguém está ali sobrando ou enchendo lugar. Destaque para o final surpreendente e para a última cena, que é deliciosa de se assistir! Ficará martelando na sua mente, principalmente por causa da música que a acompanha.

River é uma grande obra policial e psicológica, orgânica e visceral, com um elenco sensacional, muito bem dirigida e produzida, com um ritmo bem calculado e que se encerra sem deixar nenhuma ponta solta.  John River é um personagem inesquecível e apaixonante, que usa sua loucura para provocar em nós uma grande reflexão sobre a fragilidade emocional do ser humano.