Blade Runner 2049 | Crítica


Blade Runner 2049. Falar sobre esse filme não é tarefa nada fácil. Não por ser complexo ou multifacetado, mas por ser aquele tipo de filme que precisamos assistir várias vezes, assim como o primeiro, e em cada vez teremos uma surpresa diferente. Não é possível captar tudo o que ele nos oferece em apenas uma oportunidade. Temos que digeri-lo, apreciá-lo, vivê-lo por várias vezes, até que tenhamos noção da proporção cinematográfica e social que ele nos apresenta.

Recomendo que assistam ao original (preferencialmente a versão do diretor) para que consigam imergir neste maravilhoso universo criado por Ridley Scott e complementado agora por Denis Villeneuve. Por falar em Villeneuve, precisamos tirar o chapéu para essa mente. A capacidade que ele tem de criar cenários realísticos e a sensibilidade com que ele trabalha as emoções dos atores, faz com que nos sintamos dentro de seus filmes e que acreditemos que aqueles personagens realmente existem.

O Blade Runner K., interpretado por Ryan Gosling, é responsável por “caçar” modelos antigos de Replicantes e “aposentá-los”. Após encontrar um desses Replicantes, numa busca no terreno onde ele vivia, K. encontra uma caixa enterrada. Com a descoberta de seu conteúdo, inicia-se uma investigação que o leva a lugares e pessoas, numa trama que desenterra fatos do passado que podem mudar drasticamente o futuro dos Replicantes.

blade2 Cinema Críticas O filme se passa em 2049, mas é completamente atemporal, assim como o primeiro. O que entra em questão não é a visão futurista da tecnologia, e sim o futuro da humanidade, caso continuemos seguindo os mesmo passos. A apresentação de um mundo devastado soa como uma premonição, ditando categoricamente tudo o que nos aguarda.

Fiquei muito feliz ao ver que houve uma preocupação estética para não deixar transparecer uma discrepância tecnológica entre um filme e outro. Alguns equipamentos, que, para nossa tecnologia atual, seriam muito avançados, foram apresentados de forma mais arcaica, equilibrando com o filme de 1982.

O carro dirigido por K. é muito parecido com o que Deckard conduzia, tendo sido apenas um pouco remodelado. A imagem de Los Angeles é muito fiel à retratada no filme anterior, assim como os grandes letreiros em neon, o clima chuvoso e esfumaçado, as ruas caóticas e miscigenadas e a predominância da arquitetura cinzenta e aglomerada. O retorno de alguns personagens e elementos do primeiro filme, concretizam a ideia de continuidade e são deliciosamente nostálgicos.

blade4 Cinema Críticas A fotografia é perfeita! As cores utilizadas adequam-se ao sentimento que tal cena deseja nos despertar. A construção de mundo é tão real que nos transporta facilmente para dentro dele. A trilha sonora é áspera, rascante, e até estrategicamente incômoda em alguns momentos. O trabalho de montagem, que no anterior deixou furos, neste funciona muito bem. O figurino e a maquiagem são muito funcionais e a direção de arte é inegavelmente formidável.

Mesmo com todos esses elementos, o trunfo deste filme é a carga emocional de seus personagens. A inexpressividade predominante de K., surpreendentemente, nos passa uma infinidade de emoções, como solidão, raiva, esperança, angústia e amor. Sua solidão, atrelada ao apego que ele tem por uma figura virtual, remetem às relações atuais, onde se idealiza algo irreal, num mundo com pessoas cada vez mais solitárias e tristes.

Harrison Ford nos presenteia com uma expressividade que há muito não se via em seus filmes, e há muito do Deckard de 1982 em sua interpretação. A narrativa aborda o apreço pela vida, a necessidade de liberdade e o apego àqueles que amamos. A  gama de sentimentos que os Replicantes possuem, e a esperança que alimentam, faz com que esqueçamos totalmente dos humanos. Acredito que ninguém sentiu falta de um humano frio em cena. Assim, nós temos a certeza de que os Replicantes são, definitivamente, muito superiores aos humanos.

runner_usySsp7 Cinema Críticas Encontrei alguns pontos negativos, que para alguns podem não ter a mínima relevância. Alguns personagens secundários tem pouco tempo em cena, e aparecem em longos espaços de tempo. Algumas cenas acabaram caindo no clichê, principalmente em momentos de luta. O vilão tem boa motivação, mas pouca imponência. Esperava uma exploração maior do personagem. Algumas questões foram explicadas demais, desnecessariamente. Mas isso ajuda muito se a pessoa não assistiu ao seu antecessor, ou se já estava cansado após tantos minutos dentro do cinema. A duração é outro ponto questionável. Eu, particularmente, aprecio muito bem as cenas longas e sem diálogo, e aqui todas elas fazem sentido. Mas há muita gente que se cansa e acaba perdendo o foco.

Fora esses pequenos detalhes, podemos afirmar que este é um grande filme sci-fi, que mantém com carinho as características que nos fizeram amar o seu antecessor, porém com uma visão otimista. Poucas continuações tiveram tanto respeito com a obra original quanto essa. Blade Runner 2049 é uma primorosa, delicada, e sentimental demonstração do que a sociedade será capaz de fazer a si mesma um futuro não muito distante, nos alertando para a manutenção da Terra e nos fazendo repensar todas as nossas atitudes enquanto ser humano e social.