Blade Runner – O Caçador de Androides (1982) | Crítica


ATENÇÃO! CRÍTICA COM SPOILERS!!!

Acredito que muitos de vocês já assistiram a esse filme, mesmo que tenha sido há muito tempo. Inegavelmente, é um clássico que marcou época, e alimentou muito o crescimento do gênero sci-fi. Essa análise, embora feita 35 anos após o lançamento do filme, vem para relembrar um pouco da obra, no momento de estreia de sua continuação, que é exatamente hoje, e para preparar o terreno para o que nos aguarda.

Blade Runner, o Caçador de Androides: filme de 1982, dirigido pelo excepcional Ridley Scott, que já nos presenteou com grandes obras como Gladiador, Thelma e Louise, Alien e Perdido em Marte.

Los Angeles, 2019. O mundo está um caos. Certamente, até essa data, houve vários processos degradativos da Terra e o planeta está à beira de um colapso. Outros planetas estão sendo explorados, em busca de um lugar propício para a sobrevivência da raça humana.

Uma empresa chamada Tyrell Corporation criou robôs idênticos aos humanos, porém mais rápidos e mais fortes, com inteligência talvez equivalente à dos cientistas que os criaram. Esses robôs, chamados de Replicantes, foram usados fora da Terra, como escravos, em tarefas que buscavam a colonização planetária. Um grupo de Replicantes, Nexus 6, realizou um motim sangrento, causando várias mortes. Com isso, os Replicantes foram declarados ilegais.

Policiais especiais, os Blade Runners, tinham ordens diretas para matar qualquer Replicante que fosse identificado. Para que esta identificação fosse feita, era necessário fazer um teste que consistia em perguntas que ativavam alguma emoção. Caso houvesse reação emocional, era um humano. Se não houvesse, era um Replicante, e deveria ser exterminado. Quatro Replicantes desertores retornam à Terra, e ficam a cargo de Deckard (Harrison Ford), Blade Runner aposentado, exterminar o grupo. Indo muito além da ficção que abusa dos efeitos visuais, Blade Runner é uma obra que levanta dois grandes questionamentos:

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O primeiro trata da ganância e do sistema capitalista, que foram, obviamente, os grandes responsáveis por deixar o mundo daquele jeito. Grandes marcas, como a Coca Cola, são apresentadas, explicitando a soberania das grandes corporações. Com toda a exploração natural, a Terra tornou-se um lugar inóspito, e a fotografia muito bem executada, utilizando cores escuras e pouca luminosidade, nos apresenta uma Los Angeles suja, superpovoada e poluída, onde chove quase o tempo todo. Quase não há mais espécies animais e vegetais. A maioria delas é recriada em laboratório, ou seja, é artificial. Em 1982 já se apresentava essa visão deplorável do mundo e, convenhamos, não estamos muito longe disso. Há também uma crítica social, quando trata da colonização humana em outros planetas. Só pode ir pra lá quem tem poder aquisitivo elevado. Quem não tem, fica fadado a viver em cidades decadentes e abarrotadas de gente.

O segundo questionamento é voltado para as emoções e memórias, e a profunda relação entre esses dois elementos. Os Replicantes possuem longevidade limitada, de apenas quatro anos. Como passaram a desenvolver sentimentos e armazenaram memórias de tudo o que vivenciaram, tentam de toda a forma buscar um meio de conseguir prolongar sua vida. É sobre isso que o filme se desenvolve, nos apresentando uma Replicante que desconhecia ser uma, pois memórias de uma pessoa real lhe foram implantadas. Quando ela descobre que não é humana, inicia-se uma reflexão acerca do que é um ser humano senão um amontoado de memórias, emoções e experiências. Essa incapacidade que os Replicantes tem de desenvolver memórias e emoções próprias e, consequentemente, laços afetivos, torna-se contraditória, pois percebemos o afeto que os Replicantes tem entre si, enquanto os humanos se destroem e se distanciam de seus semelhantes, fazendo uma referência à sociedade, que está cada vez mais desumana e desprovida de relações interpessoais. Sendo assim, podemos sentir que o filme retrata os Replicantes como seres superiores aos humanos da época, tanto em questões físicas quanto afetivas.

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Em termos técnicos, Blade Runner apresenta um trabalho magnífico de direção, fotografia, edição de som, direção de arte e roteiro, apesar de algumas falhas na montagem. Para a época em que foi feito, devemos reconhecer que quebrou barreiras ao explorar recursos tecnológicos muito eficientes e por expor o lado negro e sombrio da sociedade.

Blade Runner é um filme com robôs, mas não sobre robôs. E não se engane! O protagonista real não é o Deckard, e sim o Roy (líder dos Nexus 6) interpretado pelo expressivo Rutger Hauer, que busca por longevidade, mesmo usando meios radicais, apenas para poder apreciar a maravilha que é se sentir vivo.

Nós, seres humanos, estamos perdendo essa capacidade, nos tornando cada vez mais subjetivos e distantes do que realmente nos define como humanos. Roy nos diz, em certo momento, que nossas lembranças se esvairão como lágrimas na chuva. E essa frase é que dá todo o peso do filme. Deixaremos nossas lembranças se esvaírem como lágrimas na chuva, ou, até lá, estaremos secos e frios o suficiente para ignorar o verdadeiro sentido do que é ser humano?

VALE LEMBRAR: Há muitos anos especula-se se Deckard é também um replicante, pois o filme nos dá algumas pistas que sugerem isso. Acredito que a resposta virá agora, em Blade Runner 2049. Vamos ver quais as surpresas que o filme nos trará. Aguardem…