Era o Hotel Cambridge | Crítica

Como contamos a história de luta de pessoas comuns para o mundo? Podemos fazê-lo destacando as mazelas que este grupo passou ou dar um tom de leveza colocando elementos de comédia na narrativa. A diretora Eliane Caffé conseguiu fazer isso, e mais, nos transportou para dentro do edifício Cambridge, ocupado por militantes do movimento por moradia, na cidade de São Paulo.

Como espectadores somos apresentados a uma realidade que de início choca, afinal, não conhecemos este lado da história, não sabemos o que acontece dentro de uma ocupação. Quem são estas pessoas? O que esperam desta ação? Temos todas as respostas em um longa que trata questões sociais de uma forma muito rica e verdadeira, isto porque todo o filme foi gravado em uma ocupação real, os atores em sua maioria são moradores daquele local. Na primeira cena conhecemos o estado em que o prédio ocupado por estas famílias se encontra, em péssimas condições de uso, pois estava abandonado pelo proprietário há muito tempo, em seguida vamos observando os rostos que serão os protagonistas do filme, interessante destacar que não se conta somente uma história, e sim o dia a dia de diversas pessoas dividindo um ambiente e uma causa.

Dentre as histórias acompanhamos a dificuldade de refugiados do Congo, Colômbia e Palestina, que encontraram nas ocupações uma resposta para a sua necessidade de abrigo, ali em meio a diversas pessoas, que também migraram, tentam se reestabelecer em meio às dificuldades com a língua, preconceito e cultura. Dentre as historias a direção nos coloca diante do problema central, a justiça de São Paulo determinou a reintegração de posse do edifício, a qual acontecerá em alguns dias, a partir deste cenário presenciamos a luta por uma causa, as dificuldades de se viver em coletivo e o medo do despejo.

A construção do filme não segue a linha do começo meio e fim da trajetória de uma pessoa, mas sim de um coletivo, para tanto percebemos que existem diversos cortes de situações ou até mesmo de tempo e espaço, mas isto não tira o realismo ou brilho do filme, que reforço tem a maioria de seu elenco composto por pessoas que vivem nesta ocupação, com destaque para uma das lideres do movimento a Carmem Silva, também compõe o elenco o ator José Dumond e a atriz Suely Franco.

Era o Hotel Cambridge foge do que estamos acostumados a presenciar do cinema nacional, nos coloca em um drama emocionante e nos faz refletir sobre como estamos lidando com espaços públicos enquanto sociedade, como nos comportamos diante da luta dos outros por direitos e preconceitos diante raça, nacionalidade e classe social.

Thaisb

Jornalista, crítica e assessora. Paulista 25 anos, com sérios amores por livros, filmes e séries.